5 de jun. de 2013

Nada Me Faltará e Lourenço Mutarelli

A primeira vez que ouvi falar de Lourenço Mutarelli foi na faculdade de Belas Artes enquanto estudava quadrinhos, e confesso, sempre adorei seus personagens repletos de labirintos psicológicos, os títulos (Sequelas, Confluência da Forquilha, A Soma de Tudo, e outros) e claro, as ilustrações sem preocupações com margens, métricas e sim com os tais labirintos psicológicos de seus personagens.
Mas há uma confissão terrível também a ser feita, mesmo adorando seus quadrinhos eu nunca havia lido um livro dele até meados do ano passado quando li Nada me Faltará.
Quando o livro em questão chegou nas minhas mãos a primeira coisa que me encantou foi a capa, parecia um delírio em tons de azul e roxo, os cantos arredondados que faziam as páginas lembrarem cartões.
Comecei a ler e a primeira coisa que me chamou a atenção foi que não havia descrição de personagens e locais, não havia narração, apenas falas e reticências (simbolizando silêncios), falas essas que não eram marcadas por travessão, eram falas que contavam uma história.
História de um homem, Paulo, que retorna para casa após um ano desaparecido, até aí tudo bem, é só
explicar porque ele desapareceu e acabar com o mistério, só que não é tão simples assim, Paulo não se lembra de haver desaparecido, e melhor, não tem a mínima noção de que um ano se passou.
A partir deste fato toda uma trama intrigante se desenvolve ao redor daqueles que recebem Paulo, seus amigos, colegas de trabalho, mãe, polícia e terapeuta.
Paulo não se lembra de onde esteve, não se lembra da sua esposa e filha que desapareceram junto com ele, não se lembra de coisas simples do seu trabalho, entretanto, se lembra de todo o resto de sua vida, e por isso se irrita quando percebe que as pessoas já não o tratam da mesmo forma que antes.
Alguns acreditam que Paulo fez algo grave contra sua esposa e filha, outras que ele é uma vítima e está sofrendo com o desaparecimento das duas.
Paulo diz não se importar com o fato de elas haverem desaparecido, até uma certa noite que ele... bem, não vou contar, leia o livro, vale a pena.
E a medida que os diálogos acontecem, dúvidas surgem, ficamos ansiosos em descobrir o que de fato aconteceu, certezas nos cercam, e a postura fria de Paulo diante do buraco que existe em sua história nos deixa presos em cada letra, vírgula e ponto final.
É um livro que testa nossos nervos de uma forma tão descompromissada que quando terminamos de ler (li todo o livro em duas horas)  e ficamos "será que tem segunda parte?".
Sim, tem gosto de quero mais.
Meu gato Mutarelli

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