Feliz Ano Novo do Rubem Fonseca foi considerado um livro subversivo, um ano após o seu lançamento foi censurado no Brasil da Ditadura Militar, entretanto, já havia vendido mais de 30 mil exemplares.
A linguagem usada nesse livro é crua, erótica e grosseira.
Rubem Fonseca não explora descrições de ambientes e perfis psicológicos dos seus personagens, ele é direto.
Essa obra é visceral e por isso, encantadora.
Devorei cada um dos contos que fazem esse livro desconcertante e hipnótico, eu passei por diversas sensações enquanto lia, fiquei chocada, enojada, curiosa e ainda consegui dar muitas gargalhadas.
Irei discorrer sobre os dois contos que mais me marcaram e fizeram com que eu tivesse reações quase opostas durante a sua leitura.
Corações Solitários, é a narração de um ex repórter policial que vai trabalhar na redação de um jornal voltado para o público feminino.
A forma que o conto a é construído, misturando as perguntas e respostas elaboradas pelo jornalista e a realidade, me fizeram gargalhar alto.
Dos contos esse é o mais divertido, porque nos permite relaxar diante do humor ácido que é peculiar a Rubem Fonseca.
Nele temos as dores humanas desnudadas, temos a solidão típica de seus personagens, mas o jogo de palavras feito por ele deixa tudo mais leve, se é possível falar de leveza quando o assunto é Rubem Fonseca.
“Dr. Nathanael Lessa. Meu marido morreu e me deixou uma pensão muito pequena, mas o que me preocupa é estar só, aos cinqüenta e cinco anos de idade. Pobre, feia, velha e morando longe, tenho medo do que me espera. Solitária de Santa Cruz.
Resposta: Grave isto em seu coração, Solitária de Santa Cruz: nem dinheiro, nem beleza, nem mocidade, nem um bom endereço dão felicidade. Quantos jovens ricos e belos se matam ou se perdem nos horrores do vício? A felicidade está dentro de nós, em nossos corações. Se formos justos e bons, encontraremos a felicidade. Seja boa, seja justa, ame o próximo como a si mesma, sorria para o tesoureiro do INPS, quando for receber a sua pensão.”
Já Feliz Ano Novo chegou a me deixar nauseada, a violência cruel descrita por ele, os estupros, assassinatos, a falta de remorso dos personagens deixa todo o conto com uma sensação indigesta.
Ele não é apenas a narração de um assalto, é como se os personagens estivessem se preparando para uma revolução, para tomar o mundo e fazer dele o que bem entendessem.
“Fiquei puto e dei uma dentada, arrancando o dedo dela. Enfiei tudo dentro de uma fronha. O quarto da gordinha tinha as paredes forradas de couro. A banheira era um buraco quadrado grande de mármore branco, enfiado no chão. A parede toda de espelhos. Tudo perfumado. Voltei para o quarto, empurrei a gordinha para o chão, arrumei a colcha de cetim da cama com cuidado, ela ficou lisinha, brilhando. Tirei as calças e caguei em cima da colcha. Foi um alívio, muito legal. Depois limpei o cu na colcha, botei as calças e desci.”
Recomendo Rubem Fonseca para todos que não temem fortes emoções e que são livres de preconceitos.
Ele é um autor que irá te chocar e te fazer se apaixonar por ele com a mesma intensidade.

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