6 de nov. de 2012

Triângulo das Águas - Caio Fernando Abreu


A popularidade do Caio Fernando Abreu me deixou muito irritada pelo simples motivo de as frases (as que são de fato dele) compartilhadas nas redes sociais fazem parecer que ele é um autor romântico e de auto ajuda, já vivi o horror de ouvir de um rapaz em uma livraria que ele estava procurando  pelo "autor que escreve coisas lindas de amor".      
Isso para quem conhece esse autor ácido, controverso, visceral, sexual e apaixonado de uma forma nada água com açúcar, é uma ofensa imensa.
Essa semana li Triângulo das Águas, esse livro que como o próprio Caio descreveu "estrutura-se sobre a simbologia dos signos da água: a emoção", me fez calar diante da intimidade exposta das personagens que são mais do que nomes, são o inconsciente, o consciente, são almas em crise, com medos, desejos e urgências.
É preciso fôlego e sensibilidade para ler Caio Fernando Abreu, é preciso saber ler a entrelinhas, ler o que não foi escrito, ouvir o que não foi dito.
E para compartilhar algo dele, que tem a cara, o cheiro e o som do que ele escreveu, segue um trecho do noturno Dodecaedro:
"Minha voz era maior e mais forte que todos os demônios soltos pela casa. Para manter eterno o verão atrás da janela, eu cantaria até o amanhecer, cantaria cada vez mais alto até que Marcelo, Anaís e Arthur viessem se reunir a nós como antigamente, e como antigamente Linda me abraçaria entrelaçando papoulas douradas nos meus cabelos, pedindo que cantasse mais. Como se estivesse grávida de um tempo novo, eu cantava. Mas tudo mudou. Linda começou a girar cada vez mais depressa. O que costumava ser doce em sua dança foi se transformando em uma espécie de fúria. Júlio apagou a luz. No escuro, não nos importávamos de pisar no cacos, procurando pelo espaço os membros suados dos outros. Uma língua molhada, quem sabe a de Martha, entrou pela minha boca, ao mesmo tempo em que eu sentia os pelos molhados de um peito de homem, talvez o de Pedro, colado às minhas costas."
Indico para quem não teme os seus próprios demônios.

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