"(...) que nas dobras infinitas do tempo de nada importa que uma menina
americana chamada Dolores Haze tenha sido privada de sua infância por um
maníaco (...)"
Sem nenhum constrangimento eu confesso que até ter nas minhas mãos o
livro Lolita do Vladmir Nabokov, eu não sabia do
que se tratava a história.
Não sabia, porque eu pensava que era a história de amor de um homem mais
velho e uma mulher mais jovem, mas não é nada disso, é a história da obsessão
de um pedófilo por uma menina de 12 anos.
E isso me embrulhou o estômago muitas vezes, me fez sentir revolta,
desespero, dor, compaixão e raiva.
Essa doença que nos faz embrenhar nos delírios perversos de Humbert
Humbert (narrador ativo da história) é em alguns momentos bizarra, confusa,
cruel e cansativa.
Precisei tomar o fôlego muitas vezes para dar continuidade na leitura
dessa obra que as vezes me nauseava com trechos "como eu gostava de
levar-lhe aquele café, e depois me recusar a servi-lho até que ela cumprisse
seu dever matinal. (...) Em tardes particularmente tropicais, na pegajosa
intimidade da sesta, eu gostava de sentir o frescor da poltrona contra minha
nudez maciça enquanto a tinha no meu colo."
O livro em alguns momentos me fez me sentir exausta, a insistência de
Humbert em nos fazer acreditar que ele era uma vítima diante dos encantos de
Lolita, que sua pedofilia era fruto de um trauma de infância, que o seu feroz
apetite sexual despejado no corpo daquela criança era excesso de amor (mais je
t'aimais, je t'aimais!) e os momentos em que o egoísmo permite que ele nos
relate que todas as noites ela chorava, os olhos perdidos da menina Lolita que
temendo uma vida como órfã sucumbiu aos mais humilhantes momentos nas mãos de
um pedófilo delirante e repulsivo "ela havia atingido próprio limite da
injustiça e frustração".
Não há redenção nessa obra, não há poesia ou encanto, e é isso que na
minha opinião tornam Lolita uma narrativa que os anos não destruíram, mesmo que
constantemente histórias de abuso sexual invadam os noticiários, não é com olhos
de "já conheço essa história" que lemos a narrativa desse cruel
apaixonado.
Assista ao filme Lolita do Stanley Kubrick.
"(...)em que, saciado dela, após fabulosas e dementes investidas
que me deixaram exausto, (...)eu a tomava nos braços com (enfim) um mudo gemido
de ternura humana, seus olhos sérios e cinzentos mais vazios do que nunca, e a
ternura penetrando mais fundo, transformava-se em vergonha e desespero, e eu
embalava a leve e longínqua Lolita nos meus braços de mármore, (...) de
repente, ironicamente, horrivelmente, o desejo voltava a crescer- e "ah
não", diria Lolita com um suspiro dirigido aos céus."


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