7 de dez. de 2012

Lolita, o livro


"(...) que nas dobras infinitas do tempo de nada importa que uma menina americana chamada Dolores Haze tenha sido privada de sua infância por um maníaco (...)"
Sem nenhum constrangimento eu confesso que até ter nas minhas mãos o livro Lolita do Vladmir Nabokov, eu não sabia do que se tratava a história.
Não sabia, porque eu pensava que era a história de amor de um homem mais velho e uma mulher mais jovem, mas não é nada disso, é a história da obsessão de um pedófilo por uma menina de 12 anos.
E isso me embrulhou o estômago muitas vezes, me fez sentir revolta, desespero, dor, compaixão e raiva.
Essa doença que nos faz embrenhar nos delírios perversos de Humbert Humbert (narrador ativo da história) é em alguns momentos bizarra, confusa, cruel e cansativa.
Precisei tomar o fôlego muitas vezes para dar continuidade na leitura dessa obra que as vezes me nauseava com trechos "como eu gostava de levar-lhe aquele café, e depois me recusar a servi-lho até que ela cumprisse seu dever matinal. (...) Em tardes particularmente tropicais, na pegajosa intimidade da sesta, eu gostava de sentir o frescor da poltrona contra minha nudez maciça enquanto a tinha no meu colo."
O livro em alguns momentos me fez me sentir exausta, a insistência de Humbert em nos fazer acreditar que ele era uma vítima diante dos encantos de Lolita, que sua pedofilia era fruto de um trauma de infância, que o seu feroz apetite sexual despejado no corpo daquela criança era excesso de amor (mais je t'aimais, je t'aimais!) e os momentos em que o egoísmo permite que ele nos relate que todas as noites ela chorava, os olhos perdidos da menina Lolita que temendo uma vida como órfã sucumbiu aos mais humilhantes momentos nas mãos de um pedófilo delirante e repulsivo "ela havia atingido próprio limite da injustiça e frustração".
Não há redenção nessa obra, não há poesia ou encanto, e é isso que na minha opinião tornam Lolita uma narrativa que os anos não destruíram, mesmo que constantemente histórias de abuso sexual invadam os noticiários, não é com olhos de "já conheço essa história" que lemos a narrativa desse cruel apaixonado.
Assista ao filme Lolita do Stanley Kubrick. 
"(...)em que, saciado dela, após fabulosas e dementes investidas que me deixaram exausto, (...)eu a tomava nos braços com (enfim) um mudo gemido de ternura humana, seus olhos sérios e cinzentos mais vazios do que nunca, e a ternura penetrando mais fundo, transformava-se em vergonha e desespero, e eu embalava a leve e longínqua Lolita nos meus braços de mármore, (...) de repente, ironicamente, horrivelmente, o desejo voltava a crescer- e "ah não", diria Lolita com um suspiro dirigido aos céus."

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