Travessuras da Menina Má foi o segundo livro que li do Mario Vargas
Llosa. Eu estava sobre o efeito da perplexidade provocada por Elogio da
Madrasta, quando fui tomada nos braços por Ricardito e a Menina Má.
No início tive ódio dela, a achei chata e ele um menino romântico,
daqueles que a maioria das meninas algum dia já trocaram bilhetes durante as
aulas do ensino fundamental.
Com o desenrolar da trama, no momento do primeiro reencontro dos dois,
gostei da atitude dela e detestei o comodismo dele.
E assim, a cada capítulo, havia coisas na Menina Má que me faziam querer
matá-la, havia coisas no Ricardito que me faziam ter certeza de que ele era um
doente, nada do que foi descrito nesse livro me passou despercebido, tudo me
provocou alguma reação, alguma emoção, fui as lágrimas, aos risos e a momentos
profundos de reflexão.
O amor devoto, cego e permanente de Ricardito pela Menina Má é mesmo um
amor pleno? Ou há nele a teimosia das histórias mal vividas, dos mistérios não
desvendados? Será que se ela tivesse se entregado a ele, revelado seu
verdadeiro nome, contado sua verdadeira história, será que mesmo assim ele
teria se mantido fielmente apaixonado por ela?
Não sei se acredito em um amor sem as dificuldades da intimidade, da
rotina, sem que o outro te veja sem máscaras, sem pudores, mas também não
duvido da força desse sentimento e que ele seja capaz de nascer mesmo no
coração de um homem ou de uma mulher que não conheceu de fato a razão do seu
afeto.
Somos obrigados a corresponder na mesmo medida o amor que nos é dado? A
Menina Má para se tornar A Menina Boa tinha que aceitar a vida da forma que
Ricardito lhe apresentava? Com as cores que ele pintava?
A Menina Má possuía uma liberdade que me encantava e me assustava, ela
era cativante e irascível, capaz de uma frieza chocante, de uma vaidade
extrema, ela possuía em excesso aspectos de uma personalidade repleta de
defeitos, mas que nela conseguiam ter um charme que nos fazia desejar o momento
do próximo encontro entre um casal nada convencional.
A Menina Má foi casada com vários homens de personalidades distintas,
durante quase todo o seu trajeto na história, Ricardito foi o seu amante, o
homem que tinha dela um sexo frio e contido, que aprendeu a satisfazê-la e se
satisfazer apenas por vê-la ter prazer. Quando percebi isso, vi ali uma
inversão dos papéis tradicionais, era ela quem tinha vários amantes, era ela
quem ia embora, era ela quem dizia não para ele, era ela que no sexo só se
importava com a sua satisfação e é essa uma das chaves dessa trama, a quebra do
convencional, o amor sem príncipes encantados, sem aquele momento em que a
mocinha decide se entregar ao amor.
Na realidade, nós nunca sabemos o que de fato sente ou pensa a Menina
Má, a história é contada todo o tempo sobre a ótica de Ricardito, são as dores
dele, os sonhos dele, os medos dele que conhecemos, até para nós leitores, a
Menina Má continua sendo um grande mistério. Llosa foi fantástico quando não
amarrou a trama, deixando para cada um a sua possibilidade de interpretação
dessa história, desse homem, dessa mulher e principalmente dos sentimentos que
permeiam esse drama.
"Que barreguices você me dirá hoje Ricardito?", essa frase foi
dita várias vezes pela Menina Má, cada uma das vezes ela vinha carregada de um
tipo diferente de sentimento que passavam entre o deboche, a saudade, o carinho
e o jogo de submisso e dominatrix que havia entre eles.
Os personagens secundários que foram em sua maioria amigos que
Ricardito, teve para poder lhe garantir sanidade e apoio, os maridos que a
Menina Má teve para mostrar o seu imenso poder de sedução e sua capacidade de
viver a vida até seu limite, fazem dessa história ainda mais envolvente.
E até o fim dela, que na minha opinião foi de um machismo extremo,
conseguiu arrancar de mim emoções extremas, não só de revolta, mas também de
dor, compaixão e saudade.
Esse livro é carregado de sentimentos, não identificar-se é praticamente
impossível.

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