30 de mar. de 2014

Enimara...

...não tenho nenhuma foto nossa para ilustrar essas palavras.
Você que por pouco, porem significativo, tempo foi uma amiga querida.
Amiga essa que preencheu a caixa de correio da minha casa com cartas que cheiravam a chá de vinho quente, com uma letrinha bordada no envelope, com textos que vinham repletos em confidências e sonhos.
Cartas imensas, cheias de adesivos, de presentinhos, de uma inocência que só agora entendo que era de uma mulher que nunca deixou de ser menina, de uma menina que foi feita mulher antes da hora...
Nossas caixas de emails também viviam lotadas com fotos, vídeos, músicas e desabafos.
Foram meses muito especiais.
Lembra que assim que nos conhecemos você me pediu uma tatuagem para cobrir as estrias das duas primeiras gestações e quando, finalmente, ficou pronta a arte o seu terceiro bebê já está a caminho?
Enquanto durou foi muito forte o que tivemos, mesmo que por instantes.
Nossa amizade foi interrompida porque eu não soube lidar com um relacionamento a distância, era muita intimidade, dependência e saudades de alguém que eu nunca tinha visto.
Aprendi quando nos perdemos de um jeito tão triste, que eu precisava entender melhor meus limites, ser menos reativa e respeitar que isso de grupo, de distância, de palavras ditas apenas através de cartas e emails era algo que eu não desejava para mim, é um risco que eu não sei correr.
E essa compreensão fez de mim uma pessoa melhor.
Quando recebi a notícia da sua morte, pensei primeiro nos seus filhos, depois no abraço que nunca demos, pensei como alguém tão repleta de personalidade podia simplesmente ir embora de uma forma tão violenta e cruel.
Não consegui chorar Eni, na verdade eu te xinguei.
Você me ensinou muito, preencheu lacunas que antes eu desconhecia, me mostrou o tanto que somos frágeis, nós todas, imperfeitas, tolas, incapazes, sonhadoras, solitárias, adoráveis...
Eu já não a tinha mais na minha vida, eu já não recebia suas cartas, eu já não escrevia emails para você, nós já havíamos rompido e seguido nossas vidas, o arrependimento que senti pelos erros que cometi já havia dado lugar a compreensão das nossas diferenças.
Seguimos nossas estradas, as cartas que me escreveu foram todas rasgadas, os livros doados, os emails apagados e as lições aprendidas.
Eu não pensava mais em você e adoraria continuar não pensando se isso significasse que está viva, linda, forte, saudável, criando seus filhos, brincando com os seus gatos, lendo seus livros, escrevendo para o blog, estudando, ouvindo rock e realizando seus sonhos.
Com essas lágrimas que correm livres pelo meu rosto te confesso que tudo que desejei desde a notícia da sua partida é que a certeza que sentiu ao tirar sua vida tivesse se tornado uma dúvida, para eu não estar aqui com essa saudade das coisas que guardei no fundo da gaveta das minhas lembranças mais pessoais.
Irei pedir todos os dias aos espíritos de luz por você, para que o desespero que te fez partir seja abrandado, para que sua alma encontre consolo e que você enfim entenda o imenso valor que tem.
Enimara, cheguei a achar que eu não tinha o direito de sofrer a sua partida, entretanto defendo que mesmo que o amor tenha mudado, ou até mesmo acabado, não significa que ele não mereça ser recordado.

Siga em paz.



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