9 de mar. de 2013

Mulher, Resistência e Coragem


No dia 08 de março de 1957 operárias de uma fábrica de tecidos foram trancadas no interior da mesma após se rebelarem contra as péssimas condições de trabalho a que eram submetidas, e além de as trancarem, colocaram fogo na fábrica e aproximadamente 130 tecelãs morreram carbonizadas.
Dessa forma trágica nascia o dia mundialmente conhecido como Dia da Mulher, mulher que é o exato, é o abstrato, é a tempestade e as lavas de um vulcão.
Mulher que é sabedoria e arte. 
Quando ouço piadas sobre esse dia, bombons e flores sendo distribuídos, sinto que apesar de todas as conquistas nós ainda não conquistamos algo que talvez mude tudo, o direito de sermos independente do que a Igreja prega, a Indústria de Cosméticos dita,o Estado determina e a sociedade propaga como sendo o papel da mulher,
Mulheres que fizeram história acreditando na arte que pulsava dentro delas e, mesmo tendo que derrubar muros, desafiar limites, aguentar a dor do preconceito, elas fizeram e aconteceram.
Almas sensíveis, capazes de ver o mundo por uma ótica única. 
Adélia Prado, Clarice Lispector, Cecília Meireles, Lygia Fagundes Telles, nomes que encontrei na primeira biblioteca que entrei na escola primária Coração de Jesus, foram os versos dessas mulheres que me fizeram companhia nas aulas de Educação Física que detestava, foram elas que me mostraram o que eram as tais figuras de linguagem que aprendia nas aulas de português da Dona Nilma, metáfora, hipérbole, metonímia...
“Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.”
Adélia Prado
"Com a ponta da língua pude sentir a semente apontando
sob a polpa. Varei-a. O sumo ácido inundou-me a boca. Cuspi
a semente: assim  queria escrever, indo ao âmago do âmago
até atingir a semente resguardada lá no fundo como um feto".
Lygia Fagundes Telles
Queria, ansiava ser como elas, ter essa capacidade de transformar sentimentos em palavras. 
Cresci lendo, pesquisando, devorando e tentando entender a essência dessas que diziam tanto para minha alma.
Descobri que a maioria delas era cercada por dores, abandonos, amores mal vividos, lutas para conseguirem ser quem eram, sem que os julgamentos da sociedade as ferissem ainda mais.
Ser mulher já não era fácil devido todas as obrigações que essa condição trazia, ser boa filha, boa esposa, boa mãe, boa cristã. Ser artista, não era algo que se encaixava nessas obrigações.
Por isso, muitas delas foram condenadas a depressão, a solidão e a marginalidade. 
E eu as admirava ainda mais.
Bruna Lombard, Hilda Hilst, Anaïs Nin, Florbela Espanca, os livros delas eram lidos por mim com a fome da adolescente que descobria que era possível se expor, que ser mulher não era o eterno teatro de santa na rua e puta na cama, era possível se assumir com desejos, deboche, erotismo, paixão, ciúmes e fúria onde quer que eu estivesse, foram elas que abriram as portas das minhas primeiras ousadias, que me acompanharam em minhas paixões de adolescência, preenchendo minha vida e sonhos.
“Quero ouvir música rouca, ver rostos, a escova contra corpos. Mulheres bonitas e homens bonitos despertam desejos ferozes em mim. Eu quero dançar, quero drogas, quero conhecer pessoas perversas, ser íntima com eles. Eu nunca olho para o rosto ingênuo. Quero morder a vida, para ser rasgada por ele - Estou indo para o inferno, para o inferno, para o inferno - selvagem, selvagem, selvagem”
Anaïs Nin
“Eu sou uma mulher espantada
o amor me molha toda
me deixa com dor nas costas
ele diz no fundo gostas
no fundo ele tem razão"
Bruna Lombardi
Elas me ajudaram a me libertar de amarras, me mostraram que mesmo tendo nascido menina eu tinha direito a escolhas, que meu eterno brinquedo não precisava ser uma boneca, que eu poderia ter a profissão que escolhesse, que eu poderia gozar, beijar, dizer não e até mesmo gritar se necessário fosse.
E no caminho que me trouxe até aqui, encontrei Martha Medeiros, Fernanda Melo, Virgínea Woolf.
"Quero saber, entre todas aquelas que eu sou, quem é a chefe, quem manda dentro de mim." 
Martha Medeiros
As palavras de Simone Beauvoir deram sentido à bandeira que carregava desde criança, o feminismo, que é essa busca por igualdade de direitos, pela divisão dos deveres, sem que as mulheres sejam vistas e tratadas como inferiores, em que os homens sejam aliados e não donos e senhores dos nossos corpos e vontades.
“Não se nasce mulher: torna-se.”
E essa luta por uma vida sem apedrejamentos, violência e desmerecimento ainda é diária, ainda é necessária, por isso encerro dizendo, que nos dias 08 de março não queremos flores, queremos, exigimos liberdade, nossos direitos garantidos e isso nos 366 dias dos anos bissextos e 365 dias nos demais.

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