A popularidade do Caio Fernando Abreu me deixou muito irritada pelo
simples motivo de as frases (as que são de fato dele) compartilhadas nas redes
sociais fazem parecer que ele é um autor romântico e de auto ajuda, já vivi o
horror de ouvir de um rapaz em uma livraria que ele estava procurando pelo "autor que escreve coisas lindas de
amor".
Isso para quem conhece esse autor ácido, controverso, visceral, sexual e
apaixonado de uma forma nada água com açúcar, é uma ofensa imensa.
Essa semana li Triângulo das Águas, esse livro que como o próprio Caio
descreveu "estrutura-se sobre a simbologia dos signos da água: a
emoção", me fez calar diante da intimidade exposta das personagens que são
mais do que nomes, são o inconsciente, o consciente, são almas em crise, com
medos, desejos e urgências.
É preciso fôlego e sensibilidade para ler Caio Fernando Abreu, é preciso
saber ler a entrelinhas, ler o que não foi escrito, ouvir o que não foi dito.
E para compartilhar algo dele, que tem a cara, o cheiro e o som do que
ele escreveu, segue um trecho do noturno Dodecaedro:
"Minha voz era maior e mais forte que todos os demônios soltos pela
casa. Para manter eterno o verão atrás da janela, eu cantaria até o amanhecer,
cantaria cada vez mais alto até que Marcelo, Anaís e Arthur viessem se reunir a
nós como antigamente, e como antigamente Linda me abraçaria entrelaçando
papoulas douradas nos meus cabelos, pedindo que cantasse mais. Como se
estivesse grávida de um tempo novo, eu cantava. Mas tudo mudou. Linda começou a
girar cada vez mais depressa. O que costumava ser doce em sua dança foi se
transformando em uma espécie de fúria. Júlio apagou a luz. No escuro, não nos
importávamos de pisar no cacos, procurando pelo espaço os membros suados dos
outros. Uma língua molhada, quem sabe a de Martha, entrou pela minha boca, ao mesmo
tempo em que eu sentia os pelos molhados de um peito de homem, talvez o de
Pedro, colado às minhas costas."
Indico para quem não teme os seus próprios demônios.

Assim como Clarice, a internet, ao invés de fazer as pessoas procurarem sobre os autores, criaram uma aura errônea sobre vários deles. Veríssimo, Lispector, Caio.
ResponderExcluirConcordo em gênero, número e grau.
O erro de muitos é falar sem conhecer de fato. Eles deduzem e espalham, se assemelha a um vírus. Vírus de nome: grande massa!
ResponderExcluirLegal seu blog, vou visitar sempre! :*