30 de mar. de 2013

Intimidade Exposta

Intimidade exposta as vezes é apenas um grito de cura, de libertação. Não nos levemos tão a sério.

Porque Feliciano Não Me Representa

Eu não me sinto representada pelo Marcos Feliciano, e acredito que a maioria que não se sente, não é pelo fato de ele ser pastor evangélico, e sim pelo desprezo que ele, com suas palavras e atitudes, demonstra ter contra os seres humanos que não se encaixam em seus padrões racistas, sexistas e homofóbicos. A bancada evangélica hoje se une para defendê-lo não por acreditar no que ele representa como presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, e sim para mostrar ter o mesmo poder religioso, intolerante e egocêntrico que os líderes católicos mostraram ter nos anos terríveis da inquisição. Me enoja ver gays serem chamados de gayzistas por hoje não aceitarem se calar diante de tanto ódio, da mesma forma que mulheres já foram, e são, chamadas e tratadas como "inhas" por desejarem igualdade de direitos, negros já foram, e são, tratados como bandidos por não aceitarem mais a chibata, enfim, não dá mais para tratarmos como uma questão religiosa algo que é político. Eu não aceitaria nem que Morgana (bruxa de Avalon) falasse metade do que esse senhor diz, pois ali, na Comissão de Direitos Humanos e Minorias ele deve ser um representante político, com tratamento igualitário para com todos nós e não um pastor guiando ovelhas, isso ele já faz na sua igreja, com aqueles que o escolheram, dentro da sua liberdade de culto, seguir o que ele diz, da forma que ele diz e como ele diz. Feliciano não me representa por sua postura política e ponto. O fato dele ser pastor evangélico não me tocaria em nada se ele soubesse separar as coisas, mas como está sendo cada vez mais recorrente nesse país que está ruindo, tudo está se misturando, virando bagunça.

Ratatouille

Quer aprender a receita dessa delícia que vai fazer festa no seu paladar???
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25 de mar. de 2013

O Caio que as Redes Sociais Desconhecem


A popularidade do Caio Fernando Abreu me deixou muito irritada pelo simples motivo de as frases (as que são de fato dele) compartilhadas nas redes sociais fazem parecer que ele é um autor romântico e de auto ajuda, já vivi o horror de ouvir de um rapaz em uma livraria que ele estava procurando  pelo "autor que escreve coisas lindas de amor".
Isso para quem conhece esse autor ácido, controverso, visceral, sexual e apaixonado de uma forma nada água com açúcar, é uma ofensa imensa.
Essa semana li Triângulo das Águas, esse livro que como o próprio Caio descreveu "estrutura-se sobre a simbologia dos signos da água: a emoção", me fez calar diante da intimidade exposta das personagens que são mais do que nomes, são o inconsciente, o consciente, são almas em crise, com medos, desejos e urgências.
É preciso fôlego e sensibilidade para ler Caio Fernando Abreu, é preciso saber ler a entrelinhas, ler o que não foi escrito, ouvir o que não foi dito.
E para compartilhar algo dele, que tem a cara, o cheiro e o som do que ele escreveu, segue um trecho do noturno Dodecaedro:
"Minha voz era maior e mais forte que todos os demônios soltos pela casa. Para manter eterno o verão atrás da janela, eu cantaria até o amanhecer, cantaria cada vez mais alto até que Marcelo, Anaís e Arthur viessem se reunir a nós como antigamente, e como antigamente Linda me abraçaria entrelaçando papoulas douradas nos meus cabelos, pedindo que cantasse mais. Como se estivesse grávida de um tempo novo, eu cantava. Mas tudo mudou. Linda começou a girar cada vez mais depressa. O que costumava ser doce em sua dança foi se transformando em uma espécie de fúria. Júlio apagou a luz. No escuro, não nos importávamos de pisar no cacos, procurando pelo espaço os membros suados dos outros. Uma língua molhada, quem sabe a de Martha, entrou pela minha boca, ao mesmo tempo em que eu sentia os pelos molhados de um peito de homem, talvez o de Pedro, colado às minhas costas."
Indico para quem não teme os seus próprios demônios.

9 de mar. de 2013

Mulher, Resistência e Coragem


No dia 08 de março de 1957 operárias de uma fábrica de tecidos foram trancadas no interior da mesma após se rebelarem contra as péssimas condições de trabalho a que eram submetidas, e além de as trancarem, colocaram fogo na fábrica e aproximadamente 130 tecelãs morreram carbonizadas.
Dessa forma trágica nascia o dia mundialmente conhecido como Dia da Mulher, mulher que é o exato, é o abstrato, é a tempestade e as lavas de um vulcão.
Mulher que é sabedoria e arte. 
Quando ouço piadas sobre esse dia, bombons e flores sendo distribuídos, sinto que apesar de todas as conquistas nós ainda não conquistamos algo que talvez mude tudo, o direito de sermos independente do que a Igreja prega, a Indústria de Cosméticos dita,o Estado determina e a sociedade propaga como sendo o papel da mulher,
Mulheres que fizeram história acreditando na arte que pulsava dentro delas e, mesmo tendo que derrubar muros, desafiar limites, aguentar a dor do preconceito, elas fizeram e aconteceram.
Almas sensíveis, capazes de ver o mundo por uma ótica única. 
Adélia Prado, Clarice Lispector, Cecília Meireles, Lygia Fagundes Telles, nomes que encontrei na primeira biblioteca que entrei na escola primária Coração de Jesus, foram os versos dessas mulheres que me fizeram companhia nas aulas de Educação Física que detestava, foram elas que me mostraram o que eram as tais figuras de linguagem que aprendia nas aulas de português da Dona Nilma, metáfora, hipérbole, metonímia...
“Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.”
Adélia Prado
"Com a ponta da língua pude sentir a semente apontando
sob a polpa. Varei-a. O sumo ácido inundou-me a boca. Cuspi
a semente: assim  queria escrever, indo ao âmago do âmago
até atingir a semente resguardada lá no fundo como um feto".
Lygia Fagundes Telles
Queria, ansiava ser como elas, ter essa capacidade de transformar sentimentos em palavras. 
Cresci lendo, pesquisando, devorando e tentando entender a essência dessas que diziam tanto para minha alma.
Descobri que a maioria delas era cercada por dores, abandonos, amores mal vividos, lutas para conseguirem ser quem eram, sem que os julgamentos da sociedade as ferissem ainda mais.
Ser mulher já não era fácil devido todas as obrigações que essa condição trazia, ser boa filha, boa esposa, boa mãe, boa cristã. Ser artista, não era algo que se encaixava nessas obrigações.
Por isso, muitas delas foram condenadas a depressão, a solidão e a marginalidade. 
E eu as admirava ainda mais.
Bruna Lombard, Hilda Hilst, Anaïs Nin, Florbela Espanca, os livros delas eram lidos por mim com a fome da adolescente que descobria que era possível se expor, que ser mulher não era o eterno teatro de santa na rua e puta na cama, era possível se assumir com desejos, deboche, erotismo, paixão, ciúmes e fúria onde quer que eu estivesse, foram elas que abriram as portas das minhas primeiras ousadias, que me acompanharam em minhas paixões de adolescência, preenchendo minha vida e sonhos.
“Quero ouvir música rouca, ver rostos, a escova contra corpos. Mulheres bonitas e homens bonitos despertam desejos ferozes em mim. Eu quero dançar, quero drogas, quero conhecer pessoas perversas, ser íntima com eles. Eu nunca olho para o rosto ingênuo. Quero morder a vida, para ser rasgada por ele - Estou indo para o inferno, para o inferno, para o inferno - selvagem, selvagem, selvagem”
Anaïs Nin
“Eu sou uma mulher espantada
o amor me molha toda
me deixa com dor nas costas
ele diz no fundo gostas
no fundo ele tem razão"
Bruna Lombardi
Elas me ajudaram a me libertar de amarras, me mostraram que mesmo tendo nascido menina eu tinha direito a escolhas, que meu eterno brinquedo não precisava ser uma boneca, que eu poderia ter a profissão que escolhesse, que eu poderia gozar, beijar, dizer não e até mesmo gritar se necessário fosse.
E no caminho que me trouxe até aqui, encontrei Martha Medeiros, Fernanda Melo, Virgínea Woolf.
"Quero saber, entre todas aquelas que eu sou, quem é a chefe, quem manda dentro de mim." 
Martha Medeiros
As palavras de Simone Beauvoir deram sentido à bandeira que carregava desde criança, o feminismo, que é essa busca por igualdade de direitos, pela divisão dos deveres, sem que as mulheres sejam vistas e tratadas como inferiores, em que os homens sejam aliados e não donos e senhores dos nossos corpos e vontades.
“Não se nasce mulher: torna-se.”
E essa luta por uma vida sem apedrejamentos, violência e desmerecimento ainda é diária, ainda é necessária, por isso encerro dizendo, que nos dias 08 de março não queremos flores, queremos, exigimos liberdade, nossos direitos garantidos e isso nos 366 dias dos anos bissextos e 365 dias nos demais.