30 de mar. de 2013
Intimidade Exposta
Intimidade exposta as vezes é apenas um grito de cura, de libertação. Não nos levemos tão a sério.
Porque Feliciano Não Me Representa

Ratatouille
Passa no Cintura Larga que lá tem tudo bem explicadinho.
25 de mar. de 2013
O Caio que as Redes Sociais Desconhecem
A popularidade do Caio Fernando Abreu me deixou muito irritada pelo
simples motivo de as frases (as que são de fato dele) compartilhadas nas redes
sociais fazem parecer que ele é um autor romântico e de auto ajuda, já vivi o
horror de ouvir de um rapaz em uma livraria que ele estava procurando pelo "autor que escreve coisas lindas de
amor".
Isso para quem conhece esse autor ácido, controverso, visceral, sexual e
apaixonado de uma forma nada água com açúcar, é uma ofensa imensa.
Essa semana li Triângulo das Águas, esse livro que como o próprio Caio
descreveu "estrutura-se sobre a simbologia dos signos da água: a
emoção", me fez calar diante da intimidade exposta das personagens que são
mais do que nomes, são o inconsciente, o consciente, são almas em crise, com
medos, desejos e urgências.
É preciso fôlego e sensibilidade para ler Caio Fernando Abreu, é preciso
saber ler a entrelinhas, ler o que não foi escrito, ouvir o que não foi dito.
E para compartilhar algo dele, que tem a cara, o cheiro e o som do que
ele escreveu, segue um trecho do noturno Dodecaedro:
"Minha voz era maior e mais forte que todos os demônios soltos pela
casa. Para manter eterno o verão atrás da janela, eu cantaria até o amanhecer,
cantaria cada vez mais alto até que Marcelo, Anaís e Arthur viessem se reunir a
nós como antigamente, e como antigamente Linda me abraçaria entrelaçando
papoulas douradas nos meus cabelos, pedindo que cantasse mais. Como se
estivesse grávida de um tempo novo, eu cantava. Mas tudo mudou. Linda começou a
girar cada vez mais depressa. O que costumava ser doce em sua dança foi se
transformando em uma espécie de fúria. Júlio apagou a luz. No escuro, não nos
importávamos de pisar no cacos, procurando pelo espaço os membros suados dos
outros. Uma língua molhada, quem sabe a de Martha, entrou pela minha boca, ao mesmo
tempo em que eu sentia os pelos molhados de um peito de homem, talvez o de
Pedro, colado às minhas costas."
Indico para quem não teme os seus próprios demônios.
9 de mar. de 2013
Mulher, Resistência e Coragem
No dia 08 de março de 1957 operárias de uma fábrica de tecidos foram
trancadas no interior da mesma após se rebelarem contra as péssimas condições
de trabalho a que eram submetidas, e além de as trancarem, colocaram fogo na
fábrica e aproximadamente 130 tecelãs morreram carbonizadas.
Dessa forma trágica nascia o dia mundialmente conhecido como Dia da Mulher, mulher que é o exato, é o abstrato, é a tempestade e as lavas de um vulcão.
Mulher que é sabedoria e arte.
Quando ouço piadas sobre esse dia, bombons e flores sendo distribuídos, sinto que apesar de todas as conquistas nós ainda não conquistamos algo que talvez mude tudo, o direito de sermos independente do que a Igreja prega, a Indústria de Cosméticos dita,o Estado determina e a sociedade propaga como sendo o papel da mulher,
Mulheres que fizeram história acreditando na arte que pulsava dentro
delas e, mesmo tendo que derrubar muros, desafiar limites, aguentar a dor do
preconceito, elas fizeram e aconteceram.
Almas sensíveis, capazes de ver o mundo por uma ótica única.
Adélia Prado, Clarice Lispector, Cecília Meireles, Lygia Fagundes
Telles, nomes que encontrei na primeira biblioteca que entrei na escola
primária Coração de Jesus, foram os versos dessas mulheres que me fizeram
companhia nas aulas de Educação Física que detestava, foram elas que me
mostraram o que eram as tais figuras de linguagem que aprendia nas aulas de
português da Dona Nilma, metáfora, hipérbole, metonímia...
“Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.”
Adélia Prado
"Com a ponta da língua pude sentir a semente apontando
sob a polpa. Varei-a. O sumo ácido inundou-me a boca. Cuspi
a semente: assim queria escrever,
indo ao âmago do âmago
até atingir a semente resguardada lá no fundo como um feto".
Lygia Fagundes Telles
Queria, ansiava ser como elas, ter essa capacidade de transformar
sentimentos em palavras.
Cresci lendo, pesquisando, devorando e tentando
entender a essência dessas que diziam tanto para minha alma.
Descobri que a maioria delas era cercada por dores, abandonos, amores
mal vividos, lutas para conseguirem ser quem eram, sem que os julgamentos da
sociedade as ferissem ainda mais.
Ser mulher já não era fácil devido todas as obrigações que essa condição
trazia, ser boa filha, boa esposa, boa mãe, boa cristã. Ser artista, não era
algo que se encaixava nessas obrigações.
Por isso, muitas delas foram condenadas a depressão, a solidão e a
marginalidade.
E eu as admirava ainda mais.
Bruna Lombard, Hilda Hilst, Anaïs Nin, Florbela Espanca, os livros delas
eram lidos por mim com a fome da adolescente que descobria que era possível se
expor, que ser mulher não era o eterno teatro de santa na rua e puta na cama,
era possível se assumir com desejos, deboche, erotismo, paixão, ciúmes e fúria
onde quer que eu estivesse, foram elas que abriram as portas das minhas
primeiras ousadias, que me acompanharam em minhas paixões de adolescência,
preenchendo minha vida e sonhos.
“Quero ouvir música rouca, ver rostos, a escova contra corpos. Mulheres
bonitas e homens bonitos despertam desejos ferozes em mim. Eu quero dançar,
quero drogas, quero conhecer pessoas perversas, ser íntima com eles. Eu nunca
olho para o rosto ingênuo. Quero morder a vida, para ser rasgada por ele -
Estou indo para o inferno, para o inferno, para o inferno - selvagem, selvagem,
selvagem”
Anaïs Nin
“Eu sou uma mulher espantada
o amor me molha toda
me deixa com dor nas costas
ele diz no fundo gostas
no fundo ele tem razão"
Bruna Lombardi
Elas me ajudaram a me libertar de amarras, me mostraram que mesmo tendo
nascido menina eu tinha direito a escolhas, que meu eterno brinquedo não
precisava ser uma boneca, que eu poderia ter a profissão que escolhesse, que eu
poderia gozar, beijar, dizer não e até mesmo gritar se necessário fosse.
E no caminho que me trouxe até aqui, encontrei Martha Medeiros, Fernanda
Melo, Virgínea Woolf.
"Quero saber, entre todas aquelas que eu sou, quem é a chefe, quem
manda dentro de mim."
Martha Medeiros
As palavras de Simone Beauvoir deram sentido à bandeira que carregava
desde criança, o feminismo, que é essa busca por igualdade de direitos, pela
divisão dos deveres, sem que as mulheres sejam vistas e tratadas como
inferiores, em que os homens sejam aliados e não donos e senhores dos nossos
corpos e vontades.
“Não se nasce mulher: torna-se.”
E essa luta por uma vida sem apedrejamentos, violência e desmerecimento
ainda é diária, ainda é necessária, por isso encerro dizendo, que nos dias 08
de março não queremos flores, queremos, exigimos liberdade, nossos direitos
garantidos e isso nos 366 dias dos anos bissextos e 365 dias nos demais.
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